O vento Mistral desalinhando irresponsavelmente meu cabelos e o sol brando aquecendo meu corpo cheio de flores na lapela sinalizam o verão mediterrâneo e um sonho guardado entre aqueles fascínios que alimentam dias tão distantes daquela luz que tanto moveu Van Gogh e Cezanne a pintar o inesquecível.
Viajo e regrido… viro uma adolescente alumbrada tomada pela paixão, sentimento de alta temperatura que suprime certezas sem sabores, como a finitude da vida e suas indesejáveis despedidas…
Mas em Provence, a vida não se esvai e, na época da floração, o tempo não para e a eternidade se instala entre aromas, tons e um mundo de vicissitudes desconhecidas, mas, muito desejadas. O auge da floração convoca a decodificar temores em esperança e inquietude em tempos mais ternos, mais tenros, mais azulados.
Tudo nesse espaço tem a leveza de um crème Brülée e o aconchego tem um piscar do infinito.
Diz a teologia que Deus criou o homem e descansou, deu por encerrada a sua ação, havia produzido sua obra-prima. Com o direito que a liberdade poética me confere, acrescento mais um capítulo. Penso que Deus descansou e quando acordou refletiu que esse ser humano, idealizado com tanto carinho, iria precisar de um perfume que O lembrasse com perfeição e, assim, levantou-se e foi caminhando e, por onde seus pés pisavam, lavandas e mais lavandas foram brotando com muitas sutilezas e o paraíso ficou perfeito. Por isso, toda vez que em Provence começa o verão, os campos reeditam esse sopro que vem do céu e em memória ao seu Criador, qualquer coração sensível reverencia o mistério, o numinoso e a transcendência se instala, se esparrama
Ah! O paraíso fica no Plateau de Valensole, campos abertos, sem cercas, sem grades, com florações distintas, flores de um lilás mais intenso, outras mais azuladas, outras ainda teimando em serem cor-de-rosa… lavandas, lavandins e raras papoulas fazendo graça aqui e acolá, fruto de sutis vacilos de uma semeadura cheia de boas intenções.
O que colhe nesses campos não cabe em vasos. Cabe em altares.
Embora seja sabido que o que nos move não é o que temos, mas o que ainda não temos e que depois que conquistamos o risco de perder a graça é altíssimo, não tenho dúvidas de que não precisarei de exercício diário para fazer a manutenção dessa conquista já alavancada pelo desejo… com certeza vai continuar me alcançando como a alegria de cada amanhecer que acontece sempre nobre independente da insônia do sonhador.
Quando se viaja com o coração exposto, privilegiando cada um dos nossos sentidos, tudo que se vê adormece tranquilamente em um poema e pode ser eternizado. Meus pés pequenos e cheios de histórias me permitiram aumentar a liberdade e me manter com as portas abertas, sem senha, sem códigos. Pronta para o encanto escondido em cada esquina.
Transitei por Avignon igual ao lado de suas muralhas da época romana, pela ponte banhada pelo Rio Ródano e pela grandeza da Praça do Relógio onde o Festival da Arte, se espalhando feito painas ao vento, permitiu que eu fincasse minha pose com uma de minhas aquarelas que expõe minha infância sem retoque, indefesa e cheio de cachos e rendas que que nomeei de Inocência Silenciosa.
Em Saint Remy, reduto de artistas e palco de um dos mais delicados capítulos da vida de Vincent Van Gogh – claustro na sua loucura criativa – caminhei me deparando com gatinhos tomando sol na janela entre vasos de flores delicadamente colocados em seus batentes. À sombra das árvores de uma simpática praça, uma pausa, uma trégua para tanta vida pulsando e para a próxima empreitada: um giro generoso de bicicleta pelas paisagens de Alpilles.
Não há possibilidade de tradução passar pelas vilas medievais construídas como um ninho sobre Le Baux em Provence, nem quando se entra numa antiga mina de extração de bauxita e calcário situada no Vale do inferno transformada nos famosos Carriéres de Lumière, onde um show multimídia em todos os cantinhos das cavernas convocam a um templo secreto sustentados por estrelas.
Nem Arles, com seu passado cultural por ter sido a capital romana e centro religioso durante um passado remoto, além de ser a casa de Van Gogh para alguns anos, nem Luberon região oceânica, palco do famoso best-seller “Um ano em Provence, nem Gordes, vila pitoresca construída em um promontório íngreme que acolhe a Abadia de Senanque, construída no século XII, abraçada por insondáveis campos de lavanda, asseguro, nada, nenhum cantinho tem espaço para o esquecimento, nada mesmo, só para o incansável deleite.
Essa insinuação da vida a ponto de transbordar me presenteou com parcerias que foram enobrecendo ainda mais essa estadia, pelo sonho que reproduzi em inúmeras telas e que agora foram se tornando realidade. Parcerias com as quais andei de caiaque na Fontaine de Vaucluse e viva aula de culinária provençal numa fazenda, retirando vegetais frescos da terra e almoçando que havíamos cozinhado.
Em Aix en Provence, berço de um dos maiores nomes da pintura, Paul Cezanne, saboreamos frutas na feira livre, rimos com os exóticos legumes, temperos, queijos e nos empanturramos de Calissons, um doce sedutor e gostoso de ser oferecido. Em Cassis, antigo porto pesqueiro, combinação entre cidade provençal com suas construções coladinhas umas às outras, e a cidade litorânea com o mediterrâneo que encanta com seus tons de azul que confundem o céu no horizonte, que clama pela inocência de uma contemplação, fizemos o passeio de barco pousando nosso olhar nas falésias e suas pequenas enseadas de águas límpidas.
E o infinito continuou nos acompanhando em Moustier Sainte Marie, cidadezinha instalada entre campos de um lilás suave feito brisa e os desfiladeiros do Rio Verdon que alimentam o belo lago de Sainte Croix. Sem exaustão alguma, no infinito continuamos acompanhando pelas pedras e escarpas, grutas onde os monges instalaram o monastério (moustier) enchendo nossos olhos de um pôr-do-sol silencioso e soberano.
Em Marseille, cidade mais antiga de toda a França, com vinte e seis séculos de história, ao ouvir os monges Beneditinos louvando a Deus na Catedral de Sainte Marie Marjuére, não aguentei e chorei pela necessidade de encostar pelo menos o dedo mindinho no delicado rosto de Deus… e a humildade desse desejo promoveu o nosso encontro. Um milagre, eu e Ele em meu secreto jardim.
Nenhuma travessia, por mais encantadora que fosse, poderia ter cumprido seu papel se não fosse mediada pela companhia daqueles que em nós se esbarram e se tornam amigos. Pessoas que acessam o âmago de nossa verdade pessoal e o nosso avesso e que, sem solicitar, nos entregamos no meio dos castelos que entramos, das histórias seculares que descobrimos, das subidas pelas ruelas cheias de flores pelas quais nos cansamos, depois em bistrôs, ao sabor de um espumante, matamos nossa sede.
Nenhuma travessia viria com cheirinho de infinito, se não nos permitíssemos o carinho que o outro nos dispensa e nos faz recordar que os primeiros passos que damos só ocorrem quando os braços que se estendem (por serem amorosos), vêm com a dose necessária de coragem sem a qual continuaríamos engatinhando.
Os vínculos sinceros ajudam a lembrar quem somos e nos dão suporte para continuarmos sendo o que somos.
Em Provence fiz amigos que ficarão em minha pele como o perfume suave de mudas de mirra. Ficarão como a plenitude do êxtase quando avistei o casebre de pedra absolutamente afogado e afofado pelos campos da lavanda, cálidos em sua celebração à vida.
Amigos vindos de alguma quinta do céu que aninhamos graciosamente, talvez não saibam o quanto nos libertam de velhos cativeiros vindos em nomes de desejos que inventamos sentir, de clausuras construídas por lutos que levaram o que não deveriam e permitimos por culpa, entre outras tantas pequenas e torpes ousadias.
O vento Mistral, desalinhando irresponsavelmente meus cabelos e aquecendo meu corpo cheio de flores na lapela em pleno verão mediterrâneo, me presenteou não só com a realização de um sonho que, até então, existia apenas nas minhas telas e aquarelas mas, com encontros que suturaram minha alma ferida.
Sei que os campos de lavanda continuarão crescendo e aparecendo como Deus no sótão onde abrigo o íntimo de mim que desconheço. Assim como sei que os amigos continuarão como as folhas secas que, caindo solenemente de uma árvore, fazem cócegas na minha história quando eu, silenciosa e sorrateira, passar abraçada ao exercício do fascínio.
Eu voltei, mas voltei diferente.
Voltei exalando o perfume que me lembra com que perfeição fui sonhada.